O petróleo e refinados no centro do jogo e como isso muda decisões de supply chain, energia e procurement
- Wagner Dias

- 24 de mai.
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Atualizado: há 6 dias
Participei recentemente do Argus Rio Crude 2026 e do workshop sobre mercado de diesel no Brasil junto com meu colega da Suzano, Guilherme Gambin. Mais do que discussões sobre petróleo e refinados, os eventos trouxeram uma mensagem muito clara: o mercado energético entrou em uma nova fase.
E talvez o principal insight tenha sido este: o mundo está trocando eficiência máxima por resiliência máxima.
Durante alguns anos, a lógica predominante das cadeias globais foi baseada em eficiência: menos estoque, menor capital empregado, logística otimizada e supply chains enxutas. Ao mesmo tempo, grandes acordos multilaterais e organizações globais ajudavam a dar maior previsibilidade ao mercado energético. Hoje, a dinâmica começa a mudar.
Segurança energética, redundância logística, optionality de abastecimento e resiliência operacional passaram a ocupar espaço central nas decisões estratégicas de empresas e governos. E isso impacta diretamente supply chain, procurement, logística e competitividade industrial.
Os debates mostraram como o petróleo voltou a ser fortemente influenciado não apenas por oferta e demanda, mas também por geopolítica, rotas marítimas, capacidade de refino e segurança de suprimento.
Um dos pontos mais discutidos foi o Estreito de Hormuz e toda a região do Golfo. Vale lembrar que a região representa aproximadamente 28% da produção global de crude oil, enquanto o estreito concentra cerca de 20% do fluxo marítimo mundial de petróleo.
Em um eventual cenário de interrupção, estimativas apresentadas no evento mostravam que apenas algo entre 4 e 5 milhões de barris por dia poderiam ser redirecionados por rotas alternativas. O impacto, portanto, vai muito além do petróleo: afeta diesel, LNG, fertilizantes, frete marítimo, inflação global e crescimento econômico.
E talvez o mais importante seja perceber a velocidade com que a volatilidade geopolítica voltou ao centro do mercado energético. Ainda estamos relativamente próximos do choque provocado pela guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022 — um evento que afetou diretamente algo próximo de 5% da oferta global de energia — e já convivemos novamente com um cenário de forte tensão estrutural. Sem falar nos movimentos recentes envolvendo Venezuela e nos rearranjos dentro da OPEP, como a saída dos Emirados Árabes Unidos.
Outro ponto que chamou bastante atenção foi a percepção de que parte relevante da acomodação recente dos preços ainda vem da utilização de estoques globais acumulados anteriormente. Mas o alerta foi claro: esse “colchão” vem sendo reduzido rapidamente. Desde março, o mercado já observou redução global próxima de 2 milhões de barris por dia em estoques e capacidade disponível.
Enquanto isso, o conflito segue sem sinais claros de estabilização estrutural. E existe um consenso consolidado de que, quanto mais prolongado for esse cenário, maior tende a ser o impacto sobre preços, spreads e volatilidade, com projeções já ultrapassando US$100/barril em alguns cenários para 2026.
Toda essa discussão evidencia um ponto importante: o setor energético passou a viver um verdadeiro “trilema” entre sustentabilidade, competitividade econômica e segurança de abastecimento.
Ao mesmo tempo em que a transição energética continua sendo uma agenda extremamente relevante para governos e empresas, os debates mostraram que segurança energética, estabilidade operacional e competitividade econômica também possuem enorme peso nas decisões estratégicas.
Isso ficou evidente nas discussões sobre novas rotas logísticas para reduzir dependências críticas, crescimento da relevância de estoques estratégicos, contratos de longo prazo, diversificação geográfica de abastecimento e até mesmo uma possível reindustrialização de setores estratégicos em algumas regiões, como na Europa, especialmente em refino, químicos, fertilizantes e metais.
Na prática, os debates mostraram que a transição energética tende a ocorrer de forma muito mais associada a uma diversificação energética, equilibrando todos esses elementos dentro da mesma balança.
Uma provocação feita durante os debates resume bem esse desafio: para acompanhar a demanda global de petróleo, seria necessário adicionar algo equivalente a “duas Petrobras por ano” em capacidade produtiva. Isso mostra a complexidade estrutural de substituir rapidamente a matriz energética global na velocidade que muitas vezes se imaginava alguns anos atrás.
Nesse contexto, as Américas ganharam enorme protagonismo nas discussões.
A Guiana continua avançando rapidamente como nova fronteira energética. A Argentina acelera o desenvolvimento de Vaca Muerta e passa a assumir papel cada vez mais relevante na América do Sul, reduzindo significativamente sua dependência de importação de diesel. O país chegou a importar cerca de 6 milhões de m³ e hoje já opera abaixo de 1 milhão, além de exportar entre 2 e 3 milhões de m³ para mercados regionais.
A Venezuela volta gradualmente ao radar global diante da necessidade de crude pesado para refinarias americanas. Ainda assim, existe um consenso de que uma retomada para patamares históricos de produção, próximos de 2,5 a 3,5 milhões de barris/dia, exigirá ciclos longos de investimento, certa estabilidade institucional e desenvolvimento de infraestrutura ao longo de mais de uma década. Hoje, o país ainda opera próximo da faixa de 1 milhão de barris/dia.
E o Brasil aparece cada vez mais consolidado como um dos principais polos offshore do mundo.
Achei particularmente interessante como vários participantes destacaram o Brasil como um ambiente relativamente mais previsível dentro de um cenário global cada vez mais instável. Em um mercado onde risco regulatório passou a ter peso enorme, previsibilidade institucional volta a ser um diferencial estratégico relevante para investimentos de longo prazo. Temos desafios regulatórios importantes, mas o caminho parece promissor, inclusive com o crescimento das chamadas Junior Oil Companies no mercado brasileiro.
Outro bloco interessante foi o workshop sobre diesel no Brasil, principalmente porque ele mostrou como toda essa discussão geopolítica impacta diretamente a economia real.
O principal ponto debatido foi que o Brasil não enfrentou uma ruptura estrutural de abastecimento, mesmo em um ambiente global extremamente volátil. Segundo dados apresentados no workshop, as importações brasileiras permaneceram próximas de 1 milhão de m³ em determinados períodos recentes, enquanto a Petrobras atingiu níveis elevados de produção doméstica. O mercado absorveu volumes via importadores privados, operações spot e ajustes logísticos relativamente rápidos.
Mas isso não significa ausência de impacto. Na prática, o mercado passou a conviver com maior volatilidade, spreads mais elevados, dificuldade de precificação, aumento de prêmio de risco e maior complexidade na gestão de abastecimento.
Como o Brasil ainda depende de aproximadamente 25% a 30% de diesel importado em determinados períodos, parte dessa volatilidade inevitavelmente chega à cadeia doméstica. Ainda assim, o comportamento dos preços no Brasil permaneceu relativamente mais controlado quando comparado a outros mercados internacionais. Enquanto o diesel acumulava altas muito mais expressivas em regiões como EUA e Europa, o mercado brasileiro apresentou variações mais moderadas, próximas da faixa de 20%.
Uma frase dita durante o evento resume muito bem o cenário:“Não faltou diesel. Mas o custo da segurança aumentou.”
Mesmo sem escassez física, a incerteza gera aumento de margem para proteção, maior necessidade de capital de giro, gargalos logísticos, dificuldade de hedge e repasses menos previsíveis ao longo da cadeia.
Isso aumenta significativamente a complexidade para distribuidores, transportadoras e grandes consumidores industriais. O que fica claro no final é que energia segue sendo uma variável profundamente estratégica.
Brent, crack spreads, diesel, frete, câmbio e geopolítica passaram a impactar ainda mais diretamente competitividade industrial, planejamento financeiro, estratégia de sourcing e gestão de risco corporativo.
E talvez essa seja a principal transformação para procurement e supply chain.
Em ambientes mais voláteis, a função deixa de atuar apenas como área transacional ou focada exclusivamente em savings e passa a operar cada vez mais como uma área de inteligência econômica e resiliência operacional.
Buscar cadeias mais resilientes, desenvolver optionalidade de abastecimento, entender dinâmicas globais de lineup, avaliar alternativas de hedge, diversificar matrizes energéticas e reduzir dependências excessivas passam a ser capacidades cada vez mais estratégicas — especialmente para empresas altamente expostas a derivados energéticos como diesel e gás natural.
Em alguns casos, isso começa inclusive a influenciar estratégias mais estruturadas de contratação e relacionamento com distribuidores, buscando maior previsibilidade de abastecimento, acesso a volumes mais estáveis (como, por exemplo, as cotas da Petrobras) e redução de exposição em momentos de maior estresse logístico e volatilidade de mercado.
No fim, o grande aprendizado do evento é que o debate energético deixou de ser apenas uma discussão sobre petróleo.
Hoje ele também é uma discussão sobre competitividade industrial, segurança operacional, resiliência logística e capacidade de adaptação em um mundo cada vez mais volátil.
E, ao que tudo indica, essa será cada vez mais a nova regra do jogo.




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